Denuncie sem moderação …

Publicado: 01/03/2010 em Uncategorized
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Pronto. Se era publicidade que o grupo Schincariol queria, então conseguiu. Só nesta semana foram abertos três processos pelo Conselho de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) contra a ação de lançamento da cerveja Devassa Bem Loura, ação esta criada pela agência Mood e protagonizada pela socialite Paris Hilton. Para quem estiver boiando, o comercial é esse aí de cima.

Agora veja só… Dois dos três processos dizem respeito ao suposto excesso de apelo sexual contido na campanha. Uma das denúncias partiu de um consumidor, que reclamou da natureza demasiadamente sensual do anúncio, enquanto outra reclamação partiu da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, que alegou ser a propaganda machista e desrespeitosa para a classe feminina.

Okay. Então me responda: quantos comerciais de cerveja não têm apelo sexual e “objetificação” da mulher?! Será mesmo que esse foi o primeiro e único? E outra! Será que isso só ocorre em propagandas de cerveja?!

Se vamos falar aqui de sensualidade exacerbada, então que se fale também das cenas de nudez das novelas, das mini-séries, das mulheres frutas, dos BBB´s da vida, em que reinam pérolas como a tal da “bundinha maluca” e afins. Que se fale dos vários outros comerciais de sabonete, de lingerie, de perfume e etc.!

Além disso, também acredito ser muita hipocrisia um argumento desse naipe ser utilizado logo na semana seguinte à do carnaval, época em que são exibidos, sem pudor algum, bundas e peitos purpurinados para o mundo inteiro ver. Se a agência Mood aceita conselho, então deixo aqui o meu: troquem a Paris Hilton de vestido curto pela Globeleza semi(?)-nua(!), substituam a trilha sonora “The man with the golden arm” pelo samba enredo da Mangueira e gravem o comercial com a protagonista usando só aquela tintura corporal enquanto toma uma cerveja e requebra no meio do sambódromo. Pronto. O estereótipo de propaganda perfeita para os padrões brasileiros está formado. Nada de reclamações.

Agora veja só outra ironia… O Conar defende que a publicidade de bebidas alcoólicas não pode ter a sensualidade como seu conteúdo principal e nem ter as modelos tratadas como objeto sexual. E aí você pergunta: “Mas e todas aquelas propagandas com gostosas de biquíni na praia?!”. Bom, o Conar retruca que isso acontece porque muitas marcas de cerveja burlam a norma com seus comerciais sendo realizados na praia, uma vez que neste ambiente é normal e adequado as modelos usarem biquínis minúsculos, fazendo, assim, com que tais propagandas estejam de acordo com as regras do setor. Ou seja, usar biquíni na praia é adequado, mas uma mulher usar um vestido curto em seu próprio apartamento é apelo sexual. No mínimo, curioso.

Algumas pessoas entendem como um apelo ao erotismo mostrar adultos consumindo cerveja na praia em trajes de banho, mas isso não diverge em nada de uma situação cotidiana”, Marcos Mesquita, superintendente do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja.

Bom, apesar de o nome da cerveja ser Devassa, eu até achei o comercial bastante tímido se comparado a outros do tipo. O engraçado é que eu realmente não sei por onde anda a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres nesses outros momentos…

Já com relação à acusação de a campanha ser machista, ora, isso não é novidade alguma. Por acaso alguém aí já viu alguma propaganda de cerveja em que mulheres bem resolvidas e bem sucedidas vão ao bar para tomar aquela gelada depois do trabalho enquanto seus maridos ligam pra saber onde elas estão? Ou então um comercial em que aparece aquele cara mega gostoso de barriga tanquinho tomando uma cerveja depois que sai da academia? Acordem-me quando isso acontecer! Na maioria dos casos o homem com o copo de cerveja na mão é um Zé Mané com cara de trouxa. Barriga tanquinho?! Esqueça… Esses aí estão mais pra barriga pochete mesmo.  Ou seja, a verdadeira mensagem que se quer passar é: “Até mesmo um babaca como você pode conseguir mulher se consumir a nossa cerveja”. Ou você acha que alguma garota com sanidade mental acharia sexy um grupo de rapazes com cara de nerd falando tudo na língua do “ão”? Pois é…

Contudo, note que com vários outros produtos também não acontece diferente. Perceba que se determinado carro X é feito para o homem, provavelmente a propaganda mostrará o carro subindo as montanhas e atravessando riachos ou então o cara com o carro cheio de mulheres lindas e maravilhosas querendo pegar em sua marcha. Agora se determinado carro Y é feito para a mulher, a propaganda deverá mostrar que o automóvel é sensacional, não porque sobe montanhas ou porque é confortável pra dar uma dentro, mas porque é espaçoso para acomodar os filhos e porque apresenta um porta-malas ideal para guardar as compras do supermercado.

Logo, acusar a propaganda de “coisificar” a mulher é, de fato, algo inegável. Entretanto, é imprescindível perceber que a “objetificação” da figura feminina vai muito além das campanhas de cerveja ou de qualquer outro produto. Vivemos em um país extremamente machista no qual os homens ocupam a posição de “machos alfa” enquanto as mulheres fazem o papel de donzelas indefesas, objeto sexual, figuras maternas ou simplesmente donas de casa. Ninguém aqui já viu algum homem fazer comercial de sabão em pó, não é?  Ou seja, é uma questão cultural. A propaganda só reforça uma realidade que já existe! E para reverter esse quadro, só havendo uma reforma social, o que não espere acontecer tão cedo. Nossa sociedade ainda é, infelizmente, machista e conservadora.  Por acaso você não se lembra do que aconteceu com o comercial das Havaianas em que a vovó falava sobre sexo casual? Pois é… Será que eu preciso dizer mais alguma coisa?

.....

Só para finalizar, deixo aqui uma parte do capítulo sobre bebidas alcoólicas do Código de Ética do Conar. Tirem suas próprias conclusões…

Anexo A – Bebidas Alcoólicas

(…)

3. Princípio do consumo com responsabilidade social: a publicidade não deverá induzir, de qualquer forma, ao consumo exagerado ou irresponsável. Assim, diante deste princípio, nos anúncios de bebidas alcoólicas:

a. eventuais apelos à sensualidade não constituirão o principal conteúdo da mensagem; modelos publicitários jamais serão tratados como objeto sexual;

b. não conterão cena, ilustração, áudio ou vídeo que apresente ou sugira a ingestão do produto;

c. não serão utilizadas imagens, linguagem ou argumentos que sugiram ser o consumo do produto sinal de maturidade ou que ele contribua para maior coragem pessoal, êxito profissional ou social, ou que proporcione ao consumidor maior poder de sedução;

(…)

Comentários
  1. Tulio disse:

    hummm…eu nem bebo cerveja :(

  2. Gabao disse:

    Nem eu :)

  3. Daniela disse:

    O comercial faz você ficar na dúvida e se perguntar: “Estão vendendo a cerveja ou a mulher?” Por isso ele foi denunciado.
    E todos esses comerciais de cervejas que sugerem isso são denunciados, mas nem todos geram essa repercussão, apenas por isso que as pessoas falam bobeiras, não estão informadas.
    Não são apenas comerciais de cerveja que são denunciados, há pouco tempo uma propaganda da Triton foi retirada de circulação por sugerir violência contra a mulher, e tudo por causa de denúncias.
    E a autorregulamentação de propaganda é bem diferente da dos programas de televisão e, por isso, ainda que recebam milhares de denúncias, não acontece nada, mas programas como “Pânico na TV”, “CQC”, “Superpop”, carnaval, novelas e outros são denunciados, pode ter a certeza.

  4. Gabao disse:

    Olá, Daniela. Obrigada pelo comentário. Só gostaria de esclarecer alguns pontos… Primeiramente, entenda que não estou defendendo o comercial, pois, como eu disse, é inegável que há a “objetificação” da mulher. Disso entenda que a figura feminina é tratada como objeto sexual, o que, teoricamente, o Conar não tolera, segundo consta no seu próprio Código de Ética. O que eu refuto é exatamente a hipocrisia da nossa sociedade, pois o comercial apenas reflete uma realidade já existente. De pouco adianta tirar esse tipo de propaganda do ar, se ainda vão existir, como já citei, os carnavais, certas novelas, programas de TV e etc. Se ainda vai existir, na própria sociedade, gente que trata a mulher de forma submissa e mulher que aceita ser tratada dessa forma.

    Acho válido que se reclame desse tipo de propaganda, mas será que boa parte desses reclamantes também não consome esses outros produtos (novelas, BBB´s, desfiles de escolas de samba, etc)? E outra! Por que não tiram do ar os outros comerciais de cerveja que são, digamos, muito mais “devassos” que este? Por que, como você afirma, as outras propagandas de cerveja geram menos repercussão? Só porque não há a Paris Hilton? Uma Juliana Paes ou uma Ivete Sangalo causam menos furor, é isso? Mesmo que seja isso, a mensagem não seria a mesma?

    Repetindo, o que eu condeno é apenas o falso moralismo de uma sociedade que é hipócrita por natureza. Tantas denúncias contra a propaganda das Havaianas em que uma avó concordava com o sexo casual pra quê?! Por acaso na nossa sociedade não existe isso? É condenável o sexo casual?! Para pessoas mais conservadoras, é. Mesmo que elas o façam!! Por isso que acho curioso. A mulher ser tratada como submissa é algo conservador, de outros tempos, mas que ainda persiste. Propagandas que mostram isso são denunciadas, como é o caso de alguns anúncios de cerveja. Mas quando algo mais “moderninho” aparece, como foi o caso da propaganda das Havaianas, as pessoas também não gostam. Inclusive, as próprias mulheres. Que coisa, não?

  5. Thiago disse:

    Realmente é mta hipocrisia. Pq todo mundo apoiou a Geysi Arruda (aquela da Uniban q usou vestido curto) e metem o pau na Paris Hilton? Pq sensualidade demais só vale pra uma marca de cerveja e não p/ outras? No país do funk, do carnaval, das pegadinhas eróticas do SBT e mil outras coisas ter um negócio desse é de lascar!!! Essa indignação deu ate vontade de tomar uma cerva… kkkkkkkkkkkk

  6. Serginho disse:

    Eu sou um Deus. Sério. Faço propaganda e descubro que minhas propagandas podem transformar as atitudes das mulheres. Já pensou se eu levo o discurso a sério? Já pensou se a propaganda da Devassa transformasse, como num passe de mágica, todas as mulheres em devassas? Isso seria o sonho dos homens, dos publicitários heterossexuais e, particularmente, um sonho meu.

    Hipocrisia é um elogio. Partindo do princípio que a hipocrisia é o velho “faça o que digo, não faça o que faço.” seria como dar alguns créditos de inteligência àqueles que denunciaram ou se sentiram incomodados/atingidos e potencialmente xingados pela propaganda. O hipócrita, lá no fundo, tem noção de sua hipocrisia – principalmente quando alguém o chama de hipócrita. O problema disso é, sem sombra de dúvidas, burrice. Ignorância e cabeça fechada. Não pode haver outra explicação.

    Infelizmente, a propaganda da Devassa é ruim, na minha opinião de publicitário, me achando o dono da verdade. Ao contrário da propaganda da Havaianas, que eu acho de um bom gosto e ousadia que beira a genialidade. Infelizmente de novo, o Brasil ainda é um país que ri com uma velhinha chamando o açougueiro de Juvenal, repetindo o bordão “nem a pau”. O Brasil, infelizmente pela terceira vez, prefere isso: http://www.youtube.com/watch?v=0szCc1nM6Co a isso: http://www.youtube.com/watch?v=u9G5NHkhsFI&feature=related

    (saudade de tu, viss?)

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