
Outro dia estava conversando com um amigo que cursa Engenharia Elétrica e ele estava me falando das dificuldades do curso. Disse que estava desestimulado e pensando em trancar a universidade, pois não estava conseguindo dar-se bem nas disciplinas de alguns professores “carrascos”. De início fiquei intrigada, pois conheço este meu amigo há bastante tempo e sempre o percebi como uma pessoa dedicada e esforçada. Por que ele não estaria se dando bem neste curso que sempre foi o sonho dele?
Parei para pensar um pouco e lembrei que também enfrentei dificuldades no meu tempo de faculdade. Sou formada em Ciências da Computação e ainda me recordo de uma das primeiras aulas que tive no curso: Introdução à Ciência da Computação. O professor, um francês de sotaque acentuado com – logicamente – pós-doutorado, começou falando sobre recursividade, um assunto completamente novo para nós, e para isso fez analogia com uma cebola. Entendemos? Claro que não! Mas pelo menos tivemos vontade de chorar, assim como a cebola faz com a gente.
Não sei em outras áreas, mas em exatas muitos professores colecionam títulos. São mestres, doutores, Phds. Porém, muitas vezes, no momento de dar uma aula, não conseguem passar o conteúdo de uma forma clara, de maneira que a turma entenda e se interesse pelo assunto. Ou seja, falta a tal da didática. Mas será que eles nunca tiveram uma aula de didática na vida?! Acredito que sim. Mas talvez o professor de didática não tivesse didática, vai saber…
Não era novidade algum professor chegar ao primeiro dia de aula com pérolas do tipo: “Pessoal, leiam este livro, pois daqui a três semanas faremos uma prova sobre seu assunto”. A aula acabava, ele saia da sala e quem quisesse tirar alguma dúvida teria que marcar um horário para tal. Sim, marcar um horário! E aí, o que pensar? “Ah, que legal! Uma disciplina que ensina a ser autodidata. Iupi!” Ou seja, passa quem é um herói. Ou parente do Chuck Norris.
E o tal do professor data-show? Não conhece? É aquele que passa a aula inteira lendo os slides! Há coisa mais monótona? Isso quando não se exime de ministrar as aulas através dos famosos seminários. Na minha época, que não é nada distante, escolhia-se um livro, dividia-se a sala em grupos e sorteavam-se os capítulos. No final das contas, nós alunos é que ministrávamos as aulas. E muito mal, por sinal. Não tenho nada contra seminários, mas transformar a maior parte de uma disciplina em uma porção de apresentações que por vezes eram medonhas é lamentável.
É por essas e outras que fico me perguntando: Se o professor não tem tempo ou até mesmo vontade de lecionar, pra que ele está lá então? Não faz sentido um docente não atentar para sua verdadeira função: Fazer com que os alunos aprendam! Será que é tão difícil ser didático, acessível, simples e claro? Ou será que é mais cômodo ser monótono, cansativo e cruel, criando uma barreira na relação com o alunado?
Por isso acredito no fato de que um professor cheio de títulos não é, necessariamente, um bom professor. Em alguns casos os títulos podem até atrapalhar, pois muitas vezes vêm acompanhados de prepotência e arrogância.
Quando o aluno não aprende, a culpa obviamente é sempre do aluno e nunca do mestre, visto que este é dotado de sabedoria e autoridade indiscutíveis. Se o rendimento do aluno é insatisfatório, é porque não estudou o suficiente. Fim de papo.
“(…) É como se o paciente, que morresse por um erro do médico, fosse o culpado pela sua própria morte; não colaborou com a técnica empregada pelo médico e, por pura pirraça, morreu. Na educação a “morte” se dá pela má formação recebida e a utilização equivocada das técnicas aprendidas. E no caso da educação a culpa da “morte” é sempre do paciente (aliás, esse termo paciente também deveria ser usado para os alunos, porque, na maioria das vezes … Haja paciência!).” José Luiz de Paiva Bello, mestre em educação e professor da Universidade Federal do Espírito Santo.
Em outras palavras, se o aluno aprende, o mérito é do professor. Se não aprende, a incompetência é dele próprio, pois o professor ensinou, mas ele não assimilou. É o famoso “Que burro, dá zero pra ele”. Há casos em que mais de a metade da turma é reprovada e tal fato é visto com a maior naturalidade. Triste, mas corriqueiro.

Lembro-me até hoje da nota mais baixa que tirei na minha vida: 1.5 em uma prova que valia 10! Quando recebi a nota fiquei arrasada, sentindo-me a escória da sociedade universitária. Mas depois que soube que a maior nota da sala havia sido 4.0 de um garoto que era praticamente o Sheldon do The Big Bang Theory, quase dei estrelinhas de felicidade. Meus colegas de classe comentavam: “Você tirou 1.5?! Caramba, parabéns!”. O garoto que tirou 4.0 foi muito mais venerado depois deste episódio. Será mesmo que ele não estudou o suficiente para tirar uma nota melhor? E será que eu também não? Nem preciso responder.
Cenas como essa eram e ainda são bem comuns. Para alguns professores, a parte mais divertida da profissão não é auxiliar no aprendizado do aluno, mas sim avaliar/julgar/medir seu desempenho, visto que é exatamente nesta fase que acredita ter o controle da situação. Certos professores gostam, orgulham-se, sentem prazer em serem temidos, em serem “carrascos”. E tudo isso pra quê? Será que eles pensam que serão mais respeitados assim? Que devido a esta condição serão homenageados na colação de grau? Tenha dó. Vai ver que é por isso que dizem que a universidade é igual à piscina: Os professores nadam, os alunos bóiam e as notas afundam. Fato.
Dessa forma, acredito que muitos docentes devam repensar o seu papel. Devem reavaliar seus métodos, seus recursos e suas posturas, uma vez que um verdadeiro professor é aquele que guia, que estimula e que motiva os seus alunos a terem vontade de aprender. E gosta disso! É aquele que marca de uma forma positiva, sempre disposto a ajudar e que, por não portar arrogância, permite o diálogo e a aproximação com o alunado. É aquele que se reinventa, que se atualiza, que se preocupa com o resultado de seu trabalho. Enfim, é aquele que adora o que faz. Será que é tão difícil, professor?












Oi Gabriella
Gostei muito do seu texto, realmente falta didática por parte dos professores da área tecnológica em geral, mas faço apenas uma pequena ressalva em relação ao lance de marcar de horários com os docentes para tirar dúvidas. Do mesmo modo que o aluno também se lasca na graduação, o docente também se lasca para dar conta do seu trabalho, porque é muita coisa para fazer. Vida de professor acadêmico (segundo o que eu percebo) não é nada fácil. Com tanta coisa a ser feita, se tudo não for rigorosamente organizado, o docente não produz como ele precisa. Daí a necessidade de marcar horário para atender os alunos.
É lógico que o docente pode contornar estes contratempos dedicando uma ou duas aulas a tirar dúvidas dos alunos antes das provas, bem como dar exercícios com respostas e/ou resolvidos para ajudá-los. E aí é que mora a falha dos docentes da área tecnológica.
Parabéns pelo texto
Samuel Lincoln M Barrocas
Samuel, não discordo que a vida de um professor seja atarefada. Não discordo mesmo. Mas nesse caso que citei, o professor tinha um compromisso, uma obrigação e um horário estipulado para dar sua matéria. Ele cumpriu sua obrigação? Não. Ele não deu a matéria e nem se utilizou do horário especificado para suas aulas. Esse horário passou a ser vago para os alunos!! Percebe a discrepância? Se ele desse sua aula normal e além disso, ainda disponibilizasse um outro horário para tirar dúvida, aí seria ótimo. Mas não foi nada perto disso que aconteceu.
“(…) um garoto que era praticamente o Sheldon do The Big Bang Theory…” EU RI!!!
Você está escrevendo cada dia melhor.
Nesses dias, o professor por afinidade está desaparecendo, e no lugar deles, estão aqueles que buscam salário e estabilidade no serviço público (digo isso porque em universidade provada é impossível um professor ser relapso sem tomar um pé na bunda). Colocar uma figura dessa pra fora da universidade é um caso raríssimo. Acho que lembras de um professor que a gente teve, no primeiro semestre por sinal, o tal do A.M. (sigla, pois não quero processo civil em mim rs…) na matéria de Álgebra Linear. O cara simplesmente não aparecia nas aulas.
Essa situação chegou a um ponto que a gent eteve que ir ao departamento de matemática, prestar uma reclamação formal. O que disseram lá?
- Ahh…. já sei quem é. É o A.M. que não está indo dar aula né?!
- Sim, é ele.
- Esse cara é famoso por aqui.
Vai ver se em uma UnP da vida o cara vai fazer isso? Vai uma pitomba que vai. É demitido no ato. Creio que a principal causa disso tudo ainda é um corporativismo besta, uma política de acobertamento por parte de sesu colegas, e aquela velha história que ainda perdura: “ssshhhh… não denuncia senão ele ferra a gente na prova”.
Agora vem a minha mente a imagem do professor Raimundo, fazendo o sinal do FUUUUU e dizendo: “E o aluno, ó….”
[img]http://i543.photobucket.com/albums/gg442/jpyllc55/fuuuu.jpg[/img]
hahaha Fuuuu!! Caramba, Glaubão… Nem lembrava do A.M.!! Só lembrei que ele existe porque você falou agora! Pra você ver como professores assim são significantes na vida dos alunos… hehe
Agora que prestei atenção no quadrinho da professora de ARTES…. kkkk… Isso aconteceu muuuuuito comigo. Lembro de um mijão que levei porque disse pra professora de artes, lá pela 5ª série, que a arte que me interessava era música.
A mulher ficou possessa…
Sempre tirava nota baixa em artes no primário, nunca fui bom com pintura, e essa era a única arte que a gente estudava.
É nessas horas que você deveria falar pra ela, bem rápido: “Prof, você pinta como eu pinto?” hehehehe Got it?
iauhefiuahefuhaiuf….
Porra Gabriella, eu estudava no marista, se eu dissesse isso era caso de pena de morte rs… Os padres iam me pendurar pelas bolas.
Ou iam te acariciar :~ kkkkkkkk Sacanagem…
Poxa, muito bacana seu texto. Além de muito bem escrito e envolvente, é uma pauta extremamente importante!
Bem, os professores com títulos não passam por aulas de didática. Ao menos isso não ocorre durante o mestrado e doutorado (falo pelo que vejo como mestranda da Ciência da Computação), com exceção do estágio de docência (para quem é bolsista CNPq ou CAPES) que nada mais é do que acompanhar o professor em alguma atividade na sua disciplina de graduação ou aplicar uns trabalhos, provas.
Mesmo achando que ser didático na verdade seja uma habilidade pessoal… acredito que esses ensinamentos deveriam sim ser incluídos na formação acadêmica!
Acredito também que os que já estão lá deveriam ser mais formadores do que julgadores. Afinal, estão lá ára formar uma nação.
Parabéns!
Olá Gabriella
Gostei muito do seu texto em tom de desabafo.
Posso publicá-lo no site Pedagogia em Foco?
Caso concorde envie uma autorização para mim, através do meu email.
Abs.,
José Luiz Bello
Caracas,,, parece que voce estava infiltrada na minha sala e produziu esse texto,,!!!!!!!!!
Sou academico de matematica pela UFPA e estamos vivendo este episodio,,, e por mais incrivel que pareça, os proprios professores da área pedagogica é que estão fazendo isso, a de didatica geral, psicologia da educação, introdução a educação,,exatamente todos!!!!!!!!!
Vou dar uma lida nesse texto num de nossos seminarios pra ver se eles caem na real!!!!!!!!!
Valew ai!!!!!!!!!!!!