Roupa suja se lava em… Televisão?!

Publicado: 14/08/2009 em Uncategorized
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Globo_Record

Fim de semana passado assisti a uma palestra intitulada de “Ética e Mídia” e durante o evento foi comentada a briga entre as redes difusoras de comunicação Globo e Record, rixa esta que ainda estava em seu início. No decorrer da semana, entretanto, a desavença tomou proporções bem significativas. E é aí que eu pergunto: seriam a mídia e a ética, nesta discussão, mutuamente excludentes?

Tudo começou quando o Jornal Nacional apresentou uma reportagem com denúncias do Ministério Público contra o bispo Edir Macedo, dono da Record, e mais alguns integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus em decorrência de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A Record, em rebate, fez questão de colocar mais lenha na fogueira apresentando uma reportagem sobre os podres da “Vênus Platinada”, até então líder de audiência. Pronto, o circo estava armado.

Duelo de titãs? Francamente, prefiro a expressão “lavagem de roupa suja”, ou até melhor, o “sujo falando do mal lavado”. E quer saber? Acho tudo isso fantástico, pois é um grande ensejo para que as falcatruas de ambas as emissoras venham à tona, revelando à massa informações que, infelizmente, muita gente ainda desconhece.

Sobre a Globo, nem todo mundo sabe que o início do império se deu logo após o golpe militar através de um acordo feito com o grupo americano Time-Life, o qual investiu milhões na nova emissora para ser responsável pela sua assessoria técnica (teórica) em troca de 30% dos lucros líquidos. Na verdade, foram feitos dois contratos: o principal e o de assistência técnica, celebrados no mesmo dia. Acontece que, na época, segundo a Constituição Federal, não poderia haver participação estrangeira nos lucros de empresas brasileiras de comunicação. Ademais, o acordo permitia que o Time-Life fosse também incumbido de prestar assistência na elaboração do conteúdo programático, notícias, treinamento de pessoal, atividades de controle financeiro e etc, o que o tornaria de certa forma sócio da difusora.

“(…) Abrangendo, pois, todos os setores existentes numa estação de televisão, desde a administração até a venda de anúncios, a ‘assistência técnica’ não se limitou a isso. (…) Fiscalizando a administração e orientando de perto a contabilidade, enfeixando praticamente todas as atividades comerciais, administrativas e financeiras, Time não assiste tecnicamente a TV Globo, mas de fato administra e gere todo seu patrimônio. (…) Esse contrato de assistência técnica é, verdadeiramente, um contrato de administração. Subordina inteiramente a TV Globo ao controle do Time, como contrapartida do contrato de sociedade em conta de participação (referência ao contrato principal).” João Calmon.

Assim, foi instaurada uma CPI, que já naquela época acabou na famosa pizza, pois como a Globo surgiu para se integrar ao regime militar, foi formulada uma série de remendos para tornar o acordo um contrato legal e, assim, a emissora poderia continuar a difundir informações distorcidas da realidade vivida naquele tempo. Enquanto várias pessoas eram torturadas, presas e assassinadas durante o período ditatorial, a nova transmissora tinha o papel de mostrar uma imagem maquiada de nação pacífica.

“Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal (referia-se ao Jornal Nacional). Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho.” Presidente Emílio Garrastazu Médici, em março de 1973.

As empresas jornalísticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunções, como depressões políticas, acontecimentos militares. Os prognósticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade… da tranqüilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situação que não esteja dentro dos esquemas traçados, como se vê nas operações de guerra.” Palavras de Roberto Marinho, em 20 de abril de 1966, depondo na CPI Globo/Time-Life.

“E esta é uma guerra – não é uma guerra quente, mas um episódio da guerra fria. Entretanto, se perdermos neste episódio, o Brasil deixará de ser um país independente para virar uma colônia, um protetorado. É muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exige derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação”. Palavras de João Calmon, diretor dos Diários Associados, deputado federal e presidente da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, em 13 de abril de 1966, depondo na CPI Globo/Time-Life.

“(…) podemos começar a entender o verdadeiro conteúdo de certa entonação de voz do locutor Cid Moreira no Jornal Nacional, o valor real das inúmeras homenagens ao “dr.” Roberto Marinho, a intenção disfarçada na escolha de uma notícia, o sentido ideológico do comportamento de determinado personagem de uma novela, a significação, enfim, do modo que a Globo quer que seu público perceba a realidade.” Daniel Herz em seu livro “A História Secreta da Rede Globo”.

E foi assim que tudo começou. Mídia e poder, lado a lado. Tanto é que a tal “Vênus Platinada” foi capaz, inclusive, de influenciar na eleição de Fernando Collor de Melo como presidente, através de manipulações das pesquisas eleitorais, de personagens criados propositalmente em novelas da época (lembra do Sassá Mutema?) e da edição extremamente tendenciosa do debate entre Collor e seu opositor, Luiz Inácio Lula da Silva. Foi a Globo, também, que influenciou de forma significativa o impeachment de Collor quando este não servia mais aos seus interesses. Ou seja, a mão que dá é a mesma que tira. Fato.

E quanto à Record, não pensem que ela é benevolente só porque está em rixa com a Globo. Já não são tão novidades as peripécias realizadas pelo seu atual dono, o bispo Edir Macedo, o qual já foi acusado de charlatanismo, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Bem que dizem que para alguns pastores, TEMPLO é dinheiro. Além disso, vale a pena (sem ser “ver de novo”) relembrar o famoso caso do chute na santa estrelado pelo bispo Sergio Von Hélder em um programa evangélico da Record. Histórico.

É bem evidente que esta emissora emergente usa o dinheiro de seu rebanho de fiéis para fins de interesses que visam ao monopólio da informação. É preciso enxergar que a Record não quer ultrapassar a Globo para que a manipulação sobre o povo se dizime, para que o açambarcamento sobre a comunicação acabe, mas sim para que ela seja agora a nova emissora que com hegemonia controla as informações. Got it? Ninguém é inocente ou bonzinho nessa história.

Por isso que acho engraçado quando a Record acusa a Globo de ser um monopólio informativo quando na verdade era ela que queria estar nesse patamar! Senão não teria sentido toda essa cópia que está sendo feita da programação global. Outro dia mesmo vi a notícia de que o apresentador “recordiano” Wagner Montes teria “convidado com empolgação” os telespectadores a assistirem ao (pasmem) “Esporte Espetacular” quando na verdade o nome do programa que ele deveria ter falado era “Esporte Fantástico”, exibido na Record. O apresentador se desculpou e disse ter se confundido devido à semelhança entre os nomes. No mínimo, irônico.

O fato é que já estamos habituados a receber uma enorme gama de informações constantemente, sejam através de notícias, anúncios, jornais, revistas e etc. E essas mídias acabam servindo como instrumentos de manipulação da sociedade, visto que as idéias são aceitas sem nenhum tipo de pré-julgamento ou distinção, entrando diretamente na cabeça das pessoas, as quais absorvem as informações sem qualquer tipo de filtro, como esponjas, não sendo capazes de sequer gerar seus próprios conceitos. E é aí que entra o papel dos meios de comunicação de massa: contribuir para a alienação. Não interessa se é Globo, Record ou SBT. Se é Veja ou Folha. Se é uma propaganda de shampoo ou de laxante. É assim que funciona.

Se você acha algo caro, não tem problema, pois você “tá pagaaandoo”. Algo é ruim? Não, não é ruim, “é a treva!”. Vai dar uma? Não, não vai dar uma, vai “nhanhar” com direito a “canguru perneta” e tudo mais.  Bordões desse tipo só nos fazem perceber o poder que a mídia tem de influenciar inclusive em traços meramente comportamentais, como o nosso vocabulário.

Não é mais conveniente manipular as pessoas dessa forma, através de seus órgãos de divulgação? É por isso que eu digo que mídia e poder andam de mãos dadas. O governo não quer contribuir com alicerces morais e educação para o povo, bem como a mídia pretende difundir a ignorância nos afastando da veracidade da informação, uma vez que assim é mais fácil de tanger o gado social. Ambos almejam nos privar do pensamento crítico e isso é bastante triste. Afinal, você não quer ser tratado como uma marionete, não é mesmo? Pense nisso na próxima vez que ligar sua TV.

Reportagens da Globo:

Reportagens da Record:

Se quiserem saber mais sobre a história podre da Globo, existe um documentário “Muito além do cidadão Kane” (Beyond Citizen Kane) que foi proibido no Brasil em virtude de uma ação judicial movida pelo falecido Roberto Marinho, mas que pode ser visto aqui(1), aqui(2), aqui(3) e aqui(4). Também tem um livro, que ainda não li, mas que dizem ser muito bom: “A história secreta da Rede Globo” de Daniel Herz.

Barra_Coruja (novo)

Comentários
  1. Gabao disse:

    PS.: Acabei de comprar o livro do Daniel Herz :D hihihi

  2. Maurício Costa disse:

    ótimo texto. acho bom e ao mesmo tempo triste toda essa desavença. bom pq realmente é um passo pra abrir os olhos da sociedade e triste pq nao importa quem ganhe essa disputa, quem perde é sempre o povo….. infelizmente.

  3. Gabao disse:

    Ah, recebi hoje o livro do Daniel Herz! Já comecei a ler e estou achando muito bom! :)

  4. Gabao disse:

    Ah, e a Record nesses dias comprou o documentário “Muito além do cidadão Kane”. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u612350.shtml

    Oh my God…

  5. Gabao disse:

    Putz, a Globo já está negociando comprar o documentário “Universal, uma ameaça ao país dos crentes”. Ai, ai, ai…

  6. Muito bom o texto. Só acrescentaria que o fato de uma emissora falar da outra, apesar de falar mal, só aumenta a audiência da rival. Ninguém vai deixar de assistir programas da Globo e da Record por causa destas denúncias.

    • “É bem evidente que esta emissora emergente usa o dinheiro de seu rebanho de fiéis para fins de interesses que visam ao monopólio da informação. É preciso enxergar que a Record não quer ultrapassar a Globo para que a manipulação sobre o povo se dizime, para que o açambarcamento sobre a comunicação acabe, mas sim para que ela seja agora a nova emissora que com hegemonia controla as informações. Got it? Ninguém é inocente ou bonzinho nessa história.”

      É verdade. Atualmente a Record anda falando mal do Ricardo Teixeira, mas se tivesse exclusividade na Copa de 2014, seria cordeirinha do Teixeira como a Globo é.

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